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Pesquisadores da UFC confirmam presença de substância tóxica em comprovantes e recibos em circulação no país
Análise foi feita em papéis térmicos, que são documentos impressos em um papel especial que reage ao calor
Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) confirmaram a presença de uma substância tóxica em recibos e comprovantes que circulam no país. Chamada de bisfenol A (BPA), a molécula age como um desregulador do sistema hormonal e pode ser absorvida pela pele através do manuseio desses papéis. Mãos úmidas, álcool em gel ou cremes nas mãos podem multiplicar essa absorção em até dez vezes.

Comprovantes de cartão, recibos de caixas de supermercado e senhas de atendimento são exemplos de papéis térmicos contaminados (Foto: PixaBay)
A análise foi feita em papéis térmicos, que são documentos impressos em um papel especial que reage ao calor. Nestes comprovantes, a bobina térmica não imprime o papel com tinta, mas aquece pequenas áreas e, pela reação do papel ao calor, o texto aparece. Exemplos do tipo são comprovantes de cartão, recibos de caixas de supermercado, senhas de atendimento, entre outros.
O estudo foi realizado no Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos (LPT), do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, sob a coordenação do professor Diego Lomonaco. O pesquisador explica que o papel térmico precisa de um composto químico que funciona como revelador de cor, e o bisfenol A é o mais usado no mundo para essa função.
“Aqui no Brasil, não existe regulamentação específica nem fiscalização da composição química de papéis térmicos, e os fabricantes e fornecedores não têm obrigação de apresentar laudo ou certificado de composição”, informa. Estudos anteriores realizados no Brasil revelam que as concentrações de bisfenol A em papéis térmicos brasileiros estão entre as mais altas do mundo.
Por conta dessa ausência de fiscalização, a presença e a concentração da substância podem variar de fabricante para fabricante e de lote para lote. “Hoje, quem compra papel térmico em volume, seja banco, supermercado ou rede de varejo, não tem nenhuma garantia do que está recebendo. Ou seja, ninguém sabe o que está naquele papel a menos que alguém analise”, explica.
A pesquisa foi encomendada ao LPT/UFC por um escritório de advocacia representante de funcionários do setor bancário. De acordo com o escritório, a solicitação da pesquisa se deu pela busca de embasamento científico para denúncias que surgiram de bancários.
ABSORÇÃO PELA PELE - O professor alerta para os riscos no manuseio desses materiais, destacando que a principal preocupação é a absorção pela pele. “O BPA não está preso quimicamente ao papel, ele fica solto na superfície e se transfere para a pele por simples contato”, informa, esclarecendo que, por esta razão, mãos úmidas, álcool em gel ou cremes nas mãos podem multiplicar a absorção do bisfenol A em até dez vezes.
“E o que torna isso preocupante é que, quando o BPA entra pela pele, ele cai direto na corrente sanguínea em forma ativa, sem passar pelo fígado, que é o órgão que normalmente neutralizaria boa parte dele”, reforça o pesquisador.
O bisfenol A desregula o sistema endócrino. Estudos associam a molécula a efeitos no sistema imunológico, distúrbios reprodutivos, alterações metabólicas e neurológicas e a tipos de cânceres como o de próstata e o de mama. “Trabalhadores que manuseiam esses papéis com frequência apresentam concentrações urinárias de BPA bem acima da população geral”, complementa Lomonaco.
Lomonaco adverte ainda que o BPA é apenas um dos bisfenóis, e que existem análogos, como o bisfenol S (BPS) e o bisfenol F, que, conforme a literatura científica já comprovou, também são potenciais disruptores do sistema hormonal. “Muitos papéis vendidos como ‘livres de BPA’ simplesmente substituíram o BPA por BPS, que apresenta riscos semelhantes”, destaca.
Além do papel térmico, os bisfenóis podem estar presentes em embalagens plásticas, revestimentos internos de latas de alimentos, selantes dentários e outros materiais do dia a dia. “É importante que empresas que trabalham com esses materiais busquem análises em laboratórios capacitados, tanto para oferecer essa garantia aos seus clientes quanto para terem a tranquilidade de saber que o material com o qual trabalham está livre dessas substâncias”, recomenda Lomonaco.
Fonte: Diego Lomonaco, professor do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC – e-mails: lomonaco@ufc.br / lpt@ufc.br
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