AGÊNCIA UFC

Pesquisa identifica contaminação por bisfenóis em caranguejos do Ceará e reforça alerta sobre gestão de resíduos

Algumas amostras do município de Fortim apontam níveis “alarmantes” das substâncias; novos levantamentos revelam contaminação em manguezais por todo Norte e Nordeste

Quarta, 02 setembro 2026 09:34
Atualização: Quarta, 02 setembro 2026 14:15
Escrito por Secom UFC

Iguaria símbolo da cultura gastronômica cearense, o caranguejo movimenta uma importante cadeia produtiva, gerando emprego e renda à população e fortalecendo o turismo no Estado. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), contudo, constatou um quadro preocupante: caranguejos recolhidos no litoral de Fortim apresentaram níveis significativamente elevados de análogos de bisfenol A, uma classe de substâncias consideradas tóxicas e com potencial de desregular o sistema hormonal de humanos. Novos levantamentos apontam a contaminação em todos os manguezais estudados do Norte e Nordeste brasileiros.

Fotografia de um crustáceo de corpo claro, semelhante a um caranguejo, sendo segurado por duas pessoas que usam luvas azuis. O animal está de barriga para cima, com as pernas e pinças abertas. Uma seringa aparece na parte inferior da imagem, próxima

Estudo revelou presença das substâncias da família dos bisfenóis tanto na urina quanto na hemolinfa (o referente ao "sangue") dos crustáceos (Foto: Lacor/Labomar/UFC)

O estudo defende que os caranguejos funcionam como eficazes indicadores biológicos da poluição nos manguezais. A presença de bisfenóis no organismo desses crustáceos sinaliza uma deficiência no gerenciamento de resíduos sólidos e líquidos na região. Para os pesquisadores, parte dessa contaminação pode estar relacionada ao descarte inadequado de papéis térmicos, como comprovantes de cartão, recibos de caixas de supermercado e senhas de atendimento, que transportam derivados de bisfenol, conforme evidenciado por outro estudo recente da UFC.

A pesquisa foi conduzida no Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC e recolheu amostras dos caranguejos, em 2025, nos municípios de Fortim e Itapissuma (Pernambuco). As áreas foram escolhidas por representarem manguezais importantes do Nordeste brasileiro, mas com características e pressões ambientais diferentes.

Este foi o primeiro estudo a analisar a presença destas substâncias no caranguejo através da urina e da hemolinfa (o referente ao “sangue” do crustáceo). Os resultados expuseram a presença das substâncias da família dos bisfenóis em ambos os líquidos, mas em concentrações consideravelmente maiores na hemolinfa, e em níveis mais elevados nos caranguejos de Fortim.

O estudo destaca os riscos potenciais desses compostos não somente para os organismos marinhos, mas também para os consumidores humanos. E um hábito comum no Ceará pode potencializar esse perigo: o de consumir o caranguejo inteiro e usar a água do cozimento para fazer pirão ou molho.

Isso porque parte dos contaminantes pode estar presente nos fluidos internos e em diferentes estruturas do animal. Durante o cozimento, esses compostos podem ser liberados para a água. Quando essa água é reutilizada no preparo de pirão, caldo ou molho, o consumidor não ingere apenas a carne, mas também substâncias que passaram para o líquido de cozimento.

A pesquisa é tema de reportagem da Agência UFC, veículo de divulgação científica da universidade. A matéria completa traz mais detalhes sobre esses contaminantes, os ricos para os consumidores e as recomendações à população e ao poder público.

Fonte: Rivelino Cavalcante, professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC - e-mail: rivelino@ufc.br, fone: (85) 3366 7035